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Pesquisa global: Meninas apontam a educação como a área da vida mais afetada pela COVID-19

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Pesquisa global: Meninas apontam a educação como a área da vida mais afetada pela COVID-19

Na Plan, acreditamos que a pandemia aprofundou as desigualdades e que os governos precisam se preocupar com as barreiras impostas às meninas

Como a pandemia afetou a vida de meninas e jovens mulheres? E como isso vai impactar seu futuro? Aqui na Plan, nos dedicamos a debater essas questões desde o ano passado, quando lançamos a primeira parte da pesquisa Vidas Interrompidas, realizada com 7 mil jovens de 14 países, inclusive do Brasil. O estudo revelou, então, que 95% das meninas tiveram suas vidas afetadas de forma negativa pela pandemia.

Hoje, lançamos a segunda parte da pesquisa: Vidas Interrompidas 2: Em suas próprias vozes – O Impacto da COVID-19 na vida de Meninas e Jovens Mulheres. Nesta edição, foram ouvidas meninas de 15 a 24 anos em entrevistas qualitativas em profundidade sobre temas como educação, saúde e bem-estar, percepções sobre a vacina e futuro. O Brasil está entre os países que participaram do estudo, que também incluiu meninas de Austrália, Egito, Equador, Espanha, Estados Unidos, Etiópia, França, Gana, Índia, Moçambique, Nicarágua, Vietnã e Zâmbia.

Para as jovens, a educação foi a área mais afetada com a pandemia. O acesso limitado à tecnologia, apoio insuficiente de escolas e faculdades e espaço físico para estudar foram as principais dificuldades enfrentadas na educação em casa. A solidão e as responsabilidades domésticas também interferiram na capacidade das meninas de acompanhar o ensino à distância enquanto as escolas e faculdades foram fechadas.

“O futuro das meninas e jovens mulheres está ameaçado no Brasil e no mundo. A pandemia aprofundou as desigualdades sociais que já eram muito marcantes em nossa sociedade e está nos fazendo dar vários passos para trás em conquistas importantes de direitos fundamentais para a igualdade de gênero e de oportunidades”, afirma Cynthia Betti, diretora-executiva da Plan International Brasil.

Nas entrevistas, as meninas relataram dificuldades de concentração e foco ao estudar em casa. Elas também citaram a falta de dinheiro para planos de dados, telefones celulares e outros custos relacionados ao aprendizado on-line, e não ter ninguém para ajudar a explicar lições ou conceitos como barreiras frequentes para aprender durante a pandemia.

“Na escola temos uma abordagem mais prática. Nas aulas on-line temos pouca oportunidade de tirar dúvidas e os professores só dão a aula e não esclarecem nossas dúvidas. Minha casa está muito cheia e barulhenta. Não estou conseguindo acompanhar as aulas”, disse Bárbara, de 16 anos.

A primeira etapa da pesquisa Vidas Interrompidas, divulgada no ano passado, descobriu que 19% das meninas em todo o mundo acreditam que a COVID-19 as forçará a suspender temporariamente seus estudos, enquanto 7% temem ter que abandonar a escola. No auge da primeira onda da pandemia, 1,5 bilhão de estudantes foram afetados pelo fechamento de escolas, que ocorreu em 194 países em quase toda a Europa, África, América Latina e Ásia.

“A COVID-19 mudou profundamente nossas vidas no último ano. Mas seu impacto não é o mesmo para todas as pessoas e a pandemia colocou em foco as desigualdades pré-existentes, seja entre ricos e pobres, jovens e idosos, homens e mulheres”, afirma Jacqui Gallinetti, diretora de Monitoramento, Avaliação, Pesquisa e Aprendizagem da Plan International. “O futuro de meninas e jovens mulheres em muitos países está muito ameaçado, e as políticas governamentais devem reconhecer isso à medida que emergimos da pandemia e nos adaptamos a uma nova normalidade, ouvindo as preocupações que elas levantaram. Caso contrário, corremos o risco de um verdadeiro revés para a igualdade de gênero.”

Por isso, defendemos que os governos precisam se preocupar com as barreiras financeiras impostas às meninas. Entre as medidas propostas na pesquisa estão o pagamento de vale-alimentação, merenda escolar e transferência de renda para incentivar as meninas a voltarem à escola, aliviando a carga sobre a renda familiar.

Estamos pedindo aos governos em todo o mundo que financiem e possibilitem um retorno seguro à escola para todos e todas as estudantes, reconhecendo que as meninas correm maior risco que os meninos de abandonar os estudos permanentemente.

Também pedimos mais treinamento para professores e alunos no uso da tecnologia, para melhorar a qualidade do ensino à distância em países onde as escolas permanecem fechadas e para que a educação seja mais resiliente em caso de crises futuras. Isso inclui o planejamento de futuros fechamentos, identificando os alunos que mais precisam de apoio e investindo em meios variados, incluindo rádio, TV e aprendizagem on-line, bem como distribuindo kits escolares com os materiais de aula e materiais escolares.

Aumento de ansiedade

O estudo também descobriu que a interrupção nos estudos, combinada ao medo do próprio vírus e à necessidade de se adaptar a medidas de isolamento social, afetou a saúde mental das meninas e muitas participantes da pesquisa precisaram lidar com o estresse e a ansiedade.

“Eu senti que estava piorando de várias maneiras, porque todos nós sabemos que nem sempre é possível ter uma boa saúde mental quando você não pode sair, ver pessoas e ter contato físico. Fico muito triste porque sempre fui uma pessoa muito sociável e agora ficar em casa com apenas duas pessoas não é nada fácil”, disse Rita, de 18 anos.

A primeira edição da pesquisa apontou que nove a cada dez meninas (88%) diziam estar sentindo níveis altos ou médios de ansiedade como consequência da pandemia de COVID-19.

Aqui no Brasil, que sofreu muito nos últimos meses com uma onda mais agressiva da pandemia e ainda está longe de ter a população jovem vacinada, as participantes também demonstram preocupação com a reabertura das atividades.

“Algumas coisas abriram aqui e estão de volta ao normal, como bares, restaurantes e lojas, e as pessoas não estão mais preocupadas. Eu perguntei a elas se encontraram a cura para a Covid-19. As pessoas andam sem máscaras e pensam que porque as coisas estão abertas já podemos sair normalmente. Fico insegura de sair de casa porque as pessoas não estão se cuidando”, contou Mariele, de 18 anos.