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Educação sexual é ferramenta importante na prevenção de abusos

Tabu ao redor do tema ainda é obstáculo para discutir corpo, autocuidado e autoproteção. Meninas participantes de nossos projetos, contam como veem o assunto

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A educação sexual – ou educação integral em sexualidade – é uma ferramenta muito importante na prevenção de casos de violência sexual. Crianças que conhecem seu corpo e sabem reconhecer quando sua privacidade é violada têm mais chances de relatar situações de abuso a um adulto de confiança. Infelizmente, ainda existem muitos obstáculos que dificultam a abordagem do tema por educadores e pais. O principal é o tabu em torno do assunto.

Para Nicole Campos, gerente técnica de programas da Plan International Brasil, muitas pessoas têm preconceito contra o tema e supõem erroneamente que uma discussão sobre sexualidade pode incentivar crianças e adolescentes a iniciar sua vida sexual precocemente. “Nós, que trabalhamos com proteção infantil, acreditamos que educação em sexualidade não significa falar sobre sexo, mas falar sobre corpo, autocuidado e autoproteção”, diz Nicole.

Outro desafio para pôr em prática a educação em sexualidade é a falta de capacitação para discutir o assunto tanto por parte dos educadores quanto de mães, pais, cuidadoras e cuidadores. “As pessoas acabam atuando em cima de seus preconceitos, vieses e valores morais e não querem conhecer mais a fundo sobre o assunto”, diz Nicole. As pessoas que se fecham para o tema acabam descumprindo o direito que adolescentes e crianças têm de entender seu corpo e de receber informações para se prevenirem contra violência, infecções sexualmente transmissíveis e gravidez não intencional.

Lauana Rafaela, de 17 anos, que faz parte do comitê de Meninas Líderes formado pelo Plano de Resposta Humanitária da Plan contra os efeitos da pandemia de Covid-19, afirma que a única orientação que recebeu durante a infância foi de sua avó, que a criou. Ela a instruiu a não aceitar ser tocada nem receber nada de estranhos. Hoje, ela sabe que em 76% dos casos de estupros, o autor era alguém conhecido, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Na escola, o assunto era tratado raramente e sempre como algo que não podia ser discutido abertamente. “Muitas mudanças no meu corpo eu fui entender já com 14, 15 anos”, diz Lauana. “E além de tarde, ainda aprendi de forma errada em conversas com amigos ou na televisão. Então fico me perguntando por que não conversamos sobre isso de maneira clara, de forma exemplificada. Por que a escola, que é justamente onde conhecemos o mundo, não pode abrir portas para falarmos de tal assunto com profissionais?”

Luiza, de 17 anos, que também faz parte do comitê de Meninas Líderes, conta que sempre evitou falar com a mãe sobre assuntos relacionados ao corpo e à sexualidade. “Quando comecei a ficar mais velha, passei a ser mais curiosa, e o livro de ciências era onde eu conseguia tirar várias dúvidas sobre o corpo humano, principalmente da menina (ou seja, o meu), já que mais ninguém falava sobre isso.” Luiza acredita que a educação sexual deveria ser obrigatória desde a educação infantil até o Ensino Médio, o que ajudaria muito as crianças e adolescentes a entender sobre o próprio corpo e identificar o que é assédio e abuso.

Na Plan International Brasil, o tema da educação em sexualidade é abordado principalmente nos projetos do eixo “Decidir”, justamente porque esse conteúdo contribui para que meninos e meninas tenham acesso a conteúdo para tomar decisões livres e informadas sobre si próprios. Projetos como La League, Adolescentes Multiplicando Saúde e Adolescente Saudável trabalham questões de gênero, violência baseada em gênero, direitos sexuais e reprodutivos, autocuidado e consciência corporal, tópicos que contribuem para a educação em sexualidade dos participantes.

A Plan também tem um programa voltado especificamente para a prevenção de violência sexual, focado em crianças de 7 a 10 anos, o Cambalhotas. “Existem maneiras adequadas de tratar o tema para cada idade. Descobrir a melhor estratégia envolve o uso dos instrumentos corretos, como livros e pesquisas”, afirma Nicole.

Um dos livros mais recomendados para ajudar pais e educadores a tratar do tema da prevenção da violência sexual com as crianças é Pipo e Fifi, da pedagoga e especialista em educação sexual Caroline Arcari. “Tão cedo quanto possível, crianças precisam da informação e das ferramentas para identificarem as situações do cotidiano e terem informações para fazerem escolhas, buscarem ajuda e selecionarem valores construídos a partir da reflexão, na relação com o outro e consigo mesmos”, diz Caroline. Confira aqui a entrevista que Caroline Arcari concedeu à Plan International Brasil sobre a importância da educação em sexualidade na formação das crianças e adolescentes.